MILITÂNCIA AMAZÔNIDA

Engajamento e fortalecimentos dos Movimentos Sociais na defesa da bacia do rio Tapajós: o caso da Escola de Militância Socioambiental Amazônida - EMSA

Esta história foi publicada originalmente na 1ª edição da revista Vozes pela Ação Climática Justa, em junho de 2023. Leia a revista completa aqui

Frente aos problemas de disputas e ameaças do território tapajônico nos últimos anos, como agronegócio, mineração, desmatamento, garimpo, entre outros, percebeu-se a necessidade da criação de um espaço de formação para fortalecer e engajar a militância na região. Assim, inicia a Escola de Militância Socioambiental Amazônida – EMSA.

A EMSA, iniciativa do Movimento Tapajós Vivo – MTV com parceria da Escola de Ativismo, se concretizou em 2022, na coalizão NÓS – educação, comunicação e mobilização popular em defesa das bacias dos rios Juruena e Tapajós, formada pelo Movimento Tapajós Vivo – MTV, Escola de Ativismo, Tapajós de Fato, Movimento pela Soberania Popular na Mineração – MAM – Coletivo baixo Tapajós/Amazonas e Rede Juruena Vivo.

A EMSA, que faz uso de uma metodologia de ensino popular, propõe uma educação mais horizontal, participativa e democrática, que valoriza o diálogo e a troca de experiências entre as pessoas. Nesse sentido, enfatiza a importância da educação como um processo de construção coletiva do conhecimento e da ação, valorizando os saberes populares e locais e incorporando as perspectivas críticas e reflexivas sobre a realidade social e ambiental (FREIRE, 2013).

Peixe e estandarte de Pirarucu cenográfico durante a X FOSPA

A escola é resultado de ações e parcerias com sujeitos internos e externos do território da bacia do Tapajós, que se preocupam com o avanço dos grandes projetos já implantados e os que estão em planejamento, desta forma, a EMSA é pensada como uma “ferramenta para fortalecer as lutas dos atores locais através das formações de base”.

A EMSA vem sendo idealizada e sonhada desde 2019 a partir do Encontro das Águas. O encontro reuniu em Santarém-PA movimentos e organizações da bacia do rio Tapajós: Juruena e Teles Pires, com participação também dos rios Madeira, Amazonas e Xingu. No encontro, debateu-se as ameaças à bacia do Tapajós e vida dos povos da região. Também foram pensadas maneiras de fortalecer a luta pela vida dos povos desta bacia. Assim sendo, nos indicativos das ações conjuntas surgiu a proposta e o comprometimento de formação de base dos militantes destes territórios. Posteriormente no encontro de consolidações das atividades do encontro, em Sinop/MT (2019) foi construída a proposta de uma escola de formação para militância de base da Amazônia. É dentro desse cenário que surge o que vem ser hoje a Escola de Militância Socioambiental Amazônida – EMSA.

A missão da EMSA é: “Oferecer conhecimentos e partilhas de saberes (científicos e conhecimento popular) para fortalecer a consciência crítica e comprometimento dos vários moradores afetados ou ameaçados pelos empreendimentos que destroem o território e os povos da Amazônia e as estratégias da luta conjunta das três bacias do Tapajós”.

 

Audiência sobre os perigos da contaminação por mercúrio, a importância do Sistema Único de Saúde – SUS e dos testes em massa dos níveis de mercúrio, bem como a expansão da pesquisa científica na Bacia do Tapajós.

 

A EMSA realizou, no ano de 2022, seis módulos presenciais e dois seminários de forma online, debatendo eixos formativos, tais como: Sociopolítico, Mobilização e Agitação e Comunicação Popular. Os módulos contaram com a participação de diversos coletivos e organizações sociais urbanas e tradicionais, sempre se atentando à equidade de gênero, e garantindo ainda a diversidade cultural, ampliando o debate de desafios e ferramentas para a nossa resistência.

Nas formações de 2022 foi possível trazer alunos para espaços de grandes debates. Exemplos disso ocorreram em maio de 2022, com a participação dos alunos na Audiência Pública que visou debater os impactos da contaminação mercurial na bacia do Tapajós e criação do Fórum de Combate à Contaminação de Mercúrio. Para a maioria foi a primeira vez em uma Audiência Pública, assim como a participação em uma ação direta, contou-se com a parceria da Escola de Ativismo, Rede Juruena Vivo e Tapajós de Fato.

Previamente houve a divisão em grupos para a participação na Audiência Pública, conseguindo organizar a ação em três etapas: (1) comunicação, usando a divulgação em massa um pouco antes da audiência, assim como uma chamada para dar visibilidade à audiência com fotos e denúncias no local; (2) preparação de falas para audiência e produção de cartazes sempre enfatizando os perigos da contaminação mercurial, a importância do Sistema Único de Saúde – SUS e testagem em massa do nível de mercúrio, bem como ampliação das pesquisas científicas na Bacia do Tapajós; (3) ação de Artivismo para sensibilizar e visibilizar a contaminação de mercúrio.

Uma outra atividade importante foi a participação no X Fórum Social Pan Amazônico – FOSPA em Belém. O objetivo da EMSA no FOSPA era de realizar um intercâmbio e um espaço de formação sobre Comunicação Popular. Para além disso, a coalizão NÓS levou uma roda de conversa para discutir mudanças climáticas e transformações do Território na Bacia do Juruena-Tapajós. A participação da coalizão e da EMSA também foi marcada pela presença de um grande pirarucu e faixas na Marcha de abertura do FOSPA. Foi uma experiência muito positiva para os alunos que participaram pela primeira vez do maior fórum internacional pan-amazônico, organizado pelos Movimentos Sociais da Amazônia, tendo a oportunidade de troca e conexão com as Amazônias.

centro

 

Nesse sentido, Educação popular e ambiental é uma abordagem educativa crítica que tem como objetivo promover a curto prazo a sensibilização e a longo prazo a conscientização para a transformação social por meio da participação ativa das pessoas em sua própria educação e na busca por soluções sustentáveis para os problemas ambientais (GADOTTI, 2016). O primeiro ano da escola de militância foi essencial para experimentar métodos, trocar conhecimentos e fortalecer as organizações e movimentos que resistem no nosso território. Esperamos que esse ano de 2023 possamos alcançar mais pessoas e instigar a luta pelo bem viver de todos.


FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 58. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.

GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra: Ecopedagogia e Educação Sustentável. 5. ed. São Paulo: Editora Peirópolis, 2016.


A Revista Vozes pela Ação Climática Justa é uma publicação produzida coletivamente pelo Time Reginal VAC Brasil e pelas organizações apoiadas pelo programa no país.

Saiba mais sobre nossos parceiros