Uma visão privilegiada sobre ações climáticas justas no Brasil

Paula Moreira é gerente de programas da Hivos no Brasil. Ela dirige nosso programa Voices for Just Climate Action (VCA), trabalhando com comunidades locais para que suas vozes sejam ouvidas nas discussões nacionais e globais sobre a crise climática. Ela fala sobre as mudanças climáticas no Brasil, como elas afetam a população e o trabalho que a Hivos está fazendo para combatê-las.

Como as mudanças climáticas afetam o Brasil?

Estamos tendo eventos climáticos extremos com muito mais frequência. As chuvas fortes podem causar deslizamentos de terra, ferindo e matando pessoas nas montanhas e nas favelas do Rio de Janeiro. As pessoas são pegas de surpresa e não têm tempo suficiente para fugir. Eles são pobres e suas casas de madeira frágeis não podem protegê-los contra deslizamentos de terra. Os idosos e os doentes correm maior risco porque têm menos mobilidade, assim como as mulheres que ficam em casa cuidando dos filhos. As chuvas fortes também causam inundações que arrastam casas em áreas ribeirinhas na Amazônia e em cidades como Nova Friburgo, Rio de Janeiro e São Paulo.

Mas desde setembro, também tivemos uma seca prolongada que está afetando a floresta amazônica, onde partes de rios como o rio Negro secaram completamente. Isso resulta em escassez de alimentos para as populações ribeirinhas, pois não há peixes para pescar. Ao mesmo tempo, eles ficam isolados porque dependem do rio para o transporte. Isso restringe seu acesso à saúde e à escola.

Os agricultores tradicionais também observam mudanças nos padrões de chuvas sazonais, colocando em risco sua segurança alimentar. As comunidades têm que se mudar para outro lugar, o que corrói seu tecido cultural e social.

O que significa para você uma ação climática justa?

Já mencionei os pobres urbanos e as mulheres: vemos que a mudança climática prejudica certos grupos mais do que outros. Embora os povos indígenas arrisquem suas vidas para defender a floresta, eles raramente são ouvidos em fóruns internacionais e nacionais sobre mudanças climáticas. Está mais do que na hora de incluir esses grupos vulneráveis na tomada de decisões sobre ações climáticas. É exatamente isso que a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira(COIAB), parceira da coalizão VCA, está fazendo(@coiabamazonia).

Para ser justa e equitativa, a ação climática também precisa abordar os problemas subjacentes que tornam esses grupos vulneráveis em primeiro lugar. Pense em questões econômicas, raciais, de gênero e geográficas. As políticas climáticas também não devem aprofundar essas outras vulnerabilidades. Em vez disso, a “ação climática justa” capacita a sociedade civil, baseia-se em soluções locais, fortalece os movimentos de base, valoriza o conhecimento tradicional e prioriza a luta contra o racismo ambiental em todas as áreas.

Imagem cortesia de Hivos

O que o Voices for Just Climate Action alcançou no Brasil?

O programa precisa ser ainda mais ambicioso no Brasil por ser um país tão grande. Temos trabalhado para unir diferentes partes do país em uma agenda comum. Isso é difícil porque as mudanças climáticas afetam diferentes partes do Brasil de forma distinta.

Apoiamos oito coalizões no Brasil que incluem até 40 organizações locais de base. Eles fazem coisas muito diferentes. Acesse Megafone Ativismo (
@megafoneativismo
), que faz murais e usa outras artes ativistas para amplificar as vozes de ativistas da Amazônia e mobilizar pessoas no país e no exterior na luta pela justiça climática. Ou veja a coalizão Banzeiros Rádios(@tapajosdefato), que relata especificamente a violência contra ativistas ambientais e de direitos humanos em lugares remotos da Amazônia.

Um terceiro parceiro, a Jandyras Network(@RedeJandyras), tenta incorporar as vozes locais na formulação de políticas, por exemplo, colocando alto-falantes no município de Belém que informam os moradores sobre a política ambiental local. Outra maneira de envolver as comunidades locais é trabalhar com elas para mapear os efeitos da mudança climática em suas vidas e arredores, que é o que nosso parceiro InfoAmazonia faz. Eles são membros da coalizão Data Ecosystem que criou uma plataforma de dados de baixo para cima para trazer vozes remotas da Amazônia para o debate nacional sobre justiça climática(@movimentoplantaformas, @casapretaamazonia, @openknowledge).

No entanto, o que mais me orgulha é o fato de criarmos conexões entre esses grupos diferentes e diversificados. Isso é importante porque, juntos, eles podem exercer mais influência para mudar a opinião pública nacional e, consequentemente, as políticas públicas. Essas colaborações produziram workshops, fóruns e festivais bem-sucedidos, especialmente com o apoio do Instituto Equit brasileiro feminista(@institutoequit), da coalizão Piracema.

O que o motiva pessoalmente a fazer esse trabalho?

Estou muito ligado à questão de como a crise climática afeta a vida das pessoas porque venho de uma família de agricultores. Sempre cultivamos café, que é muito sensível às mudanças nas condições climáticas. Secas ou chuvas fortes danificam facilmente as plantações.

Minha formação me deixou muito ciente de que as mudanças climáticas têm profundas consequências sociais.

As mudanças climáticas também significam que as plantas de café não florescem todas de uma vez em julho, como costumava ser o caso. Atualmente, algumas plantas florescem em maio. Isso gera muito mais trabalho porque, em vez de colher de uma só vez, precisamos fazer uma colheita seletiva antecipada das bagas que já estão maduras. Minha família teve que abandonar a produção de café por causa de todo esse trabalho extra.

Minha formação me deixou muito consciente de que as mudanças climáticas têm profundas consequências sociais, e isso me inspira a trabalhar pela justiça climática. Parte da solução é ouvir a própria população local. Veja o caso da minha família, que de fato começou a se adaptar às mudanças climáticas plantando árvores nativas que protegem as plantas de café do sol, da chuva forte e do vento. O Voices for Just Climate Action enfatiza a importância desse tipo de conhecimento indígena e local.

O que vem por aí para a justiça climática no Brasil?

Queremos continuar trazendo o conhecimento, as soluções e as histórias locais sobre o clima, às vezes de lugares muito remotos, para os espaços onde a tomada de decisões acontece. Queremos apoiar atividades que integrem áreas de justiça climática com direitos cívicos na esfera digital e com gênero e diversidade.

Também queremos colaborar mais estreitamente com os parceiros de implementação da VCA no Quênia, Zâmbia e Tunísia. E também com Uganda, onde trabalha o think tank feminista Akina Mama Wa Afrika (AmWA), membro da aliança VCA. O Brasil foi colonizado e teve uma economia baseada na escravidão por mais de 350 anos. Mais de 50% da nossa população se define como não branca. O sistema educacional pós-colonial e a cultura do Brasil são baseados em uma herança profundamente enraizada de colonialismo e patriarcado.

Acredito que a colaboração com os movimentos africanos da VCA, em especial os movimentos feministas de justiça climática, é extremamente poderosa para combater o racismo ambiental e climático e criar ações e políticas climáticas justas. É por isso que atualmente estamos procurando trabalhar em conjunto com a AmWA para treinar mulheres, entre outras coisas, em liderança política. Também queremos coproduzir uma publicação sobre soluções climáticas locais feministas.

O artigo original pode ser lido no site da Hivos.

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