JOVENS EM MOVIMENTO
Jovens do Acre se unem para formar a Coalizão da Rede Comunic(A)tiva para promover a comunicação e o ativismo na luta socioambiental.
Esta história foi publicada originalmente na 1ª edição da revista Vozes pela Ação Climática Justa, em junho de 2023. Leia a revista completa aqui
Laiane da Costa Santos herdou o engajamento de seus pais na luta pelos direitos dos povos indígenas que vivem na floresta. Luiris da Silva Carvalho tem orgulho da história de sua família e de se reconhecer como seringueiro tradicional. Raylane Onofres Rodrigues tem em suas mãos a fotografia como ferramenta de ativismo socioambiental. E o ideal de André da Silva Marciel é produzir sem destruir a natureza. Esses quatro jovens têm em comum o desejo de manter vivo o território que habitam: a Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, que se estende por 9.705,7 km² em sete municípios do Acre e, apesar de ser referência internacional em desenvolvimento sustentável, lidera o ranking das áreas protegidas mais desmatadas do Brasil.
Agora eles estão na vanguarda da defesa não apenas da Amazônia, mas do planeta. Laiane, Luiris, Raylane e André fazem parte do programa Voices for Just Climate Action (VCA), que em dezembro de 2022 reuniu vinte e seis jovens em Xapuri, no Acre, para um ciclo de formação. Foram várias oficinas, como a de teatro ”Do que somos feitos e o que seremos”, com Marcos Luanderson, ator e bailarino do Acre; ”Comunicação Técnica e Emoção, como desenvolver os dois sentidos. Eu penso, depois escrevo e compartilho”, com Thanee Degasperi, gerente de redes sociais do coletivo Mídia Ninja; e ”Stencil”, com o Subvertivo Lab, um laboratório artístico, criativo e experimental. Outras atividades envolveram tópicos como o papel de cada pessoa na luta contra a crise climática e a importância do protagonismo juvenil.

Thanee aplicou um processo de aprendizado livre para que os jovens se entendam como comunicadores e cidadãos multimídia. ”Com um celular na mão, eles conseguem ser cinegrafistas, fotógrafos, redatores, editores… Hoje temos a ‘mídia de massa’ e não a ‘mídia de massa’ que poucas famílias supervisionam” diz ela. ”Temos um mosaico de parcialidade em que cada um pode trazer seu ponto de vista. Todos podem ser comunicadores e criar conteúdo de mídia. O resultado será o surgimento de muitas narrativas, a verve dos comunicadores dentro de territórios que podem se entender como agentes de transformação.”
André, que tem 20 anos e mora na parte da Resex Chico Mendes localizada no município de Brasiléia, já espera promover mudanças. ”Conheci novas ferramentas que me permitirão alavancar o trabalho que já realizamos na comunidade, conscientizando sobre a busca de uma vida digna em associação com os seres humanos e a natureza. Poderei documentar e registrar, não apenas para a minha comunidade, mas para o mundo. Quero expor nosso modo de vida, como é especial viver na Reserva. Além disso, sinto-me obrigado a usar essas ferramentas para conscientizar as pessoas do meu território, dos arredores e de todos os lugares sobre o perigo que estamos vivendo com a crise climática”. ele diz.

A troca de aprendizado durante os cinco dias de atividades do programa VCA foi intensa e antecedeu a 33ª Semana Chico Mendes, que aconteceu de 15 a 22 de dezembro em Xapuri e Rio Branco. ”Esse encontro mostrou que não estamos sozinhos”, comemora Laiane, 32 anos.
”Muitos jovens estão atentos às suas comunidades e têm feito um trabalho importante. Com cada um ativo em seus territórios, estamos fortalecendo uma rede pelo clima.”

A ativista, que carrega em seu DNA a luta pelos povos da floresta, sendo sua mãe a primeira mulher a ingressar no movimento sindical dos trabalhadores rurais da região, tem se destacado como uma jovem liderança acreana. Ela participou, por exemplo, do painel “Conectando Clima e Justiça Social para não deixar ninguém para trás”, promovido pela Ação para o Desenvolvimento Sustentável durante a 27ª Conferência do Clima da ONU, a COP27, em novembro de 2022, no Egito. Na ocasião, Laiane apresentou as ações realizadas em seu território para a conservação da Amazônia.
Karla Martins, do Comitê Chico Mendes, ressalta que o objetivo do ciclo de formação realizado em Xapuri foi sensibilizar os jovens sobre a importância da comunicação como resistência e enfrentamento ao processo de desconstrução da identidade da floresta – para evitar o apagamento sistemático desses povos que vem sendo promovido em todo o mundo. ”A ideia é potencializar essas vozes jovens, a troca de conhecimento em rede, o diálogo e identificar os desafios, o que está sendo feito, as estratégias de comunicação utilizadas, para fortalecer cada vez mais esse papel da juventude” diz ela.
Disseminar novas formas de luta é essencial para que os jovens se sintam motivados a manter o legado das gerações que vieram antes. Um dos momentos que mais emocionou Luiris durante o evento da VCA foi o encontro com Raimundão Mendes, 77 anos, primo de Chico Mendes e uma das principais lideranças vivas do Acre. ”Ele me inspira. É uma figura célebre, como se fosse da família. Ele lutou ao lado do meu pai, ao lado do Chico Mendes, eu me inspiro no jeito dele de ser um seringueiro tradicional. Ao ouvir seu discurso, percebi que preciso me reconhecer como seringueiro. Sou um seringueiro e não vou mais negar isso. Sou um quebrador de castanhas, amo o que faço”, diz Luiris, de 22 anos, que é seringueiro. diz Luiris, 22 anos.

Raylane se junta a você. “Ouvir Raimundão, Sabá Marinho e Leide Aquino foi muito emocionante e me incentivou a levar comigo a luta pela justiça social e climática em meu território”, ressalta. A jovem de 18 anos acrescenta que os cinco dias de imersão nas oficinas realizadas em Xapuri fortaleceram seu desejo de se manter firme no ativismo. “Preservar a floresta, falar da minha cultura com orgulho, de onde eu vim, me inspirou a mobilizar cada vez mais os jovens da minha comunidade”, diz.

Diálogos entre tradição e modernidade
Como você pode motivar a conexão entre modernidade e tradição? Onde você estava aos 17, 18 e 19 anos? Essas perguntas foram incentivadas para que líderes e companheiros de Chico Mendes – como Raimundão, Sabá Marinho, Leide Aquino e sua filha, Angela Mendes, que é presidente do Comitê Chico Mendes – pudessem contar aos jovens como era no passado e como tem sido hoje a luta dos mais antigos para manter a Amazônia viva e para que os povos da floresta tenham seus direitos respeitados.

Angela falou sobre sua relação com o pai e como despertou para a necessidade de preservar a floresta com a carta de Chico Mendes, escrita poucos meses antes de ele ser assassinado, em dezembro de 1988. Dirigida aos jovens do ano 2120, a narrativa utópica celebra o centenário de uma revolução mundial que, na imaginação da ativista ambiental, tornou o planeta socialmente justo para todos os povos.
“Fui chamado pela carta do meu pai, e você está aqui pelo mesmo motivo, para assumir essa revolução. Essa luta resultou na Aliança dos Povos da Floresta e na criação de reservas extrativistas. Ele conclama os jovens desta geração a fazer isso e a agir em prol do planeta. O que vocês estão fazendo aqui é uma revolução nos dias de hoje. Uma revolução baseada na comunicação, na escrita e na fala, na experiência viva. Vocês são as vozes em defesa do território, da identidade cultural, e isso é importante para a comunidade de vocês e para o mundo”, destaca Angela.
Rede comunicativa
A Rede Jovem Comunic(A)tiva é uma coalizão formada pelo Comitê Chico Mendes em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia (STR), a Associação dos Moradores e Produtores da Reserva Extrativista Chico Mendes em Xapuri (AMOPREX), o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), a Casa Ninja Amazônia e a Liga das Quadrilhas Juninas do Acre (LIQUAJAC).

O objetivo da Rede de Jovens Comunic(A)tivas é criar uma rede robusta de empoderamento mútuo e agendas comuns. “O objetivo é impactar diretamente na criação de políticas públicas e aportes financeiros, estabelecendo alianças e sensibilizando seus territórios e a sociedade em geral”, enfatiza Karla Martins, do Comitê Chico Mendes.
Cerca de cem jovens das Resex Chico Mendes de Xapuri, Brasiléia, Epitaciolândia, Assis Brasil e Sena Madureira e das áreas urbanas desses municípios, além de Rio Branco, estão sendo beneficiados com encontros e treinamentos sobre comunicação.
A Revista Vozes pela Ação Climática Justa é uma publicação produzida coletivamente pelo Time Reginal VAC Brasil e pelas organizações apoiadas pelo programa no país. Leia a revista completa aqui.
