DADOS PELO CLIMA
Como o ecossistema de dados abertos pode transformar a narrativa sobre a Amazônia
Esta história foi publicada originalmente na 1ª edição da Revista Vozes pela Ação Climática Justa em junho de 2023. Leia a revista completa aqui.
Em 2022, o maior evento de dados e inovação da América Latina, a Conferência Brasileira de Jornalismo de Dados e Métodos Digitais (Coda.Br), teve a sua primeira edição regional em sete anos de história. O Coda Amazônia, realizado em coalizão com diferentes organizações por meio do programa Vozes pela Ação Climática Justa (VAC), reuniu em Belém (PA) mais de 150 participantes para falar sobre inovação cívica, dados abertos, jornalismo de dados, transparência pública e métodos digitais.

Também no ano passado, o mapeamento de ecossistemas de dados e inovação cívica na Amazônia identificou 182 atores que dialogam com temas locais. Esses movimentos podem ser fundamentais para impulsionar a transformação das narrativas e tecnologias de participação popular na região amazônica. Ao estabelecer uma comunidade de intercâmbio e fomento de informações, é possível desenvolver uma cultura local que valoriza o papel do morador da região como protagonista na construção de soluções para temas relevantes na comunidade.
A conferência é realizada pela Open Knowledge Brasil por meio do programa Escola de Dados, e tradicionalmente em São Paulo. Mas desde a construção da ideia de realizar uma edição local do Coda, promover o protagonismo de atores locais foi uma prioridade. Metade das pessoas convidadas para o primeiro Coda Amazônia são originárias ou residentes da região Norte. O mesmo princípio também foi aplicado para a contratação de fornecedores de serviços e materiais para o evento.
“Começamos a programação da conferência falando de colonialismo e extrativismo de dados, de atores de corporações se apropriando dos dados, mas como que nós, diferentes partes desse ecossistema, conseguimos coletar ou produzir dados para conduzir as nossas próprias narrativas, contar o que está acontecendo, a partir das nossas perspectivas? A coalizão de organizações que promoveram esse evento, e o projeto VAC de maneira mais ampla, busca fortalecer o ecossistema de inovação cívica na Amazônia. É a forma como unimos as nossas capacidades para fortalecer as vozes locais”, destacou a diretora executiva da Open Knowledge Brasil, Fernanda Campagnucci.

O Coda Amazônia foi híbrido, contou com 13 workshops presenciais e transmissão ao vivo, via YouTube, de seus três painéis principais. Foram mais de 800 visualizações online (via Youtube), cerca de 47,1 mil impressões das mensagens do perfil da Escola de Dados e mais de 3,6 mil visualizações de página no site do evento. A audiência veio de 49 cidades localizadas em 21 estados brasileiros, o que mostra que a região Norte tornou-se o centro da discussão em outras regiões durante o evento.
“Pude entender mais sobre alguns assuntos novos, principalmente saber o nome de pessoas referências, que irei acompanhar”, respondeu um participante ao responder o formulário anônimo de avaliação do evento.
O evento também proporcionou conexões, como no caso de participante de Rio Branco, no Acre, que conheceu durante o Coda, em Belém, uma professora da sua cidade. “Para mim, a temática foi muito relevante. Adorei a participação da Sonaira [Silva], que nunca tinha conhecido no Acre, mas acabamos nos conectando em Belém. Como sou do Direito, acredito que precisaria ter um contato mais aprofundado com análise de dados para conseguir visualizar usos concretos”, respondeu outro participante.
Para Jader Gama, assessor de tecnologia da informação da Funbosque, pesquisador do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPA e membro do coletivo Casa Preta, a edição presencial contribui para organizar a articulação local. ”Ter participado da primeira edição histórica do Coda Amazônia mostra que nosso grupo, formado por pessoas muito diferentes, mas com objetivos comuns, está no caminho certo. Podemos contribuir e articular um ecossistema. Somos networkers, e isso tem uma simbologia muito grande no território amazônico”.

MOBILIZAÇÃO E IMPACTO
O evento foi organizado pela Escola de Dados, da Open Knowledge Brasil (OKBR), por meio da coalizão Fortalecimento do Ecossistema de Dados e Inovação Cívica na Amazônia Brasileira, que envolve instituições sediadas no Pará – Associação de Afro Envolvimento Casa Preta e a Associação dos Amigos da Inclusão Digital da Amazônia (INDIA/Coletivo Puraqué) – e de outras regiões (PyLadies Manaus e InfoAmazonia) no âmbito do programa Vozes pela Ação Climática Justa (VAC).
Para além do envolvimento das próprias organizações locais participantes da coalizão, esta participação e articulação começou com o diálogo com a rede do Fórum Social Panamazônico, tendo como marco inicial a escolha de realizar o Coda Amazônia como uma de suas atividades preparatórias. Em seguida, a Universidade Federal do Pará – por meio da Faculdade de Comunicação (FACOM) e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) – também somaram esforços e cederam suas instalações para realização das atividades, além de conectar o Coda Amazônia a estudantes e pesquisadores locais que compuseram a equipe de documentação do evento.
Uma prova de que a iniciativa começou a criar raízes, foi a criação do Grupo de Trabalho formado por acadêmicos, gestores públicos e organizações da sociedade civil para organizar a edição 2023 do evento.

