Cuida! Defesa do clima na Amazônia
Treinamento em advocacia política pelo clima reúne 38 jovens e mulheres de todos os estados brasileiros da Amazônia Legal para palestras, workshops, trocas de experiências e diálogos com os poderes legislativo e executivo em Brasília

Foto: Tatiana Reis/Gunga
A incidência política é uma ferramenta essencial na luta por direitos. Nos territórios, muitas vezes não é exatamente assim que essa prática é denominada, mas sempre houve o entendimento de que é necessário exigir dos governos, parlamentos e outros espaços e autoridades, políticas públicas efetivas que garantam dignidade e melhores condições de vida, especialmente no atual cenário de emergência climática.
”Estamos vivenciando um movimento de fortalecimento da nossa autoestima nesse processo de advocacy, principalmente na Amazônia. A advocacia é feita não só dentro de nossos territórios, mas principalmente fora deles para mostrar ainda mais nossas identidades plurais e quem são os protagonistas”, diz Alícia Miranda, 25 anos, do Amapá, do coletivo Utopia Negra e membro do coletivo Movimento Plantaformas.
Foi em linha com a linha de pensamento da Alícia que o programa Voices for Just Climate Action (VAC), em parceria com o Observatório do Clima, reuniu 38 jovens e mulheres dos nove estados da Amazônia Legal em Brasília para o treinamento Cuida! Defesa do clima na Amazônia. (Cuida, em algumas gírias da região amazônica, significa ao mesmo tempo tome cuidado e apresse-se!) .
“A solução em geral está nas novas gerações. O caminho é colocar na juventude todo esse conhecimento sobre a questão ambiental, sobre a questão climática e sobre os problemas sociais da região amazônica”, ressaltou Sueli Araújo, do Observatório do Clima, que participou como facilitadora do bloco ”A incidência como ela é – Executivo, Legislativo e Judiciário”.

Foto: Gabriela Pires/Gunga
Além de Suely e suas inúmeras experiências políticas, o programa também abordou os temas ”Justiça Climática e Racismo Ambiental – A realidade dos efeitos das mudanças climáticas sobre as populações mais vulneráveis e como influenciar políticas”, com Andreia Coutinho (CBJC) e Angela Mendes (Comitê Chico Mendes); ”Mudanças Climáticas na Amazônia – O retrato das causas e efeitos da ação humana no Bioma e sua relação com o Clima no mundo”, com Ane Alencar (IPAM/OC); ”Eleições Municipais e Clima”, com Sarah Darcie, do Clima de Eleição; e uma mesa redonda sobre advocacy internacional ligado a territórios locais, com Sineia do Vale Wapichana, presidente do Comitê Indígena de Mudanças Climáticas (CIMC) e copresidente para a América Latina e Caribe do Indigenous Caucus, o Fórum Internacional de Mudanças Climáticas dos Povos Indígenas.
”Queremos contribuir com mais conhecimento sobre a questão climática em si para ajudar os movimentos que estão lá no território a atuarem de forma mais robusta, a alcançarem resultados mais efetivos, a poderem fazer propostas e reivindicações mais elaboradas”, diz Suely Araújo.
Cuida! no Poder Executivo
O processo de treinamento do Cuida foi concebido para que, além da teoria, os participantes pudessem se envolver na prática com os espaços de poder de Brasília. Para isso, promoveu visitas a órgãos públicos da capital federal.
Reunimo-nos com a equipe do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA) para conhecer e discutir o Plano de Adaptação Climática, a estratégia do país para reduzir as vulnerabilidades às mudanças climáticas e gerenciar riscos. A delegação de Cuida foi recebida por Inamara Melo, coordenadora geral de adaptação às mudanças climáticas do MMA. ”Todos os modelos climáticos convergem para mostrar que as mudanças climáticas já são uma realidade. Esses impactos são muito reais e graves. Um momento como esse é absolutamente necessário e nos faz refletir sobre nossas ações e nossa capacidade de lidar com os problemas. É muito importante termos espaços para nos reunirmos com vocês”, disse Inamara.
Após a apresentação do Plano Climático e de seu processo de construção, os participantes falaram em plenário e, em seguida, foram divididos em três grupos com representantes da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e do Ministério das Cidades, órgãos que serão responsáveis por três dos quinze planos setoriais do Plano de Adaptação Climática.
”Precisamos fortalecer a participação de pessoas que historicamente foram excluídas dos espaços de tomada de decisão. Temos que criar oportunidades para que essas pessoas ocupem os espaços que estão tomando as decisões que afetam suas vidas em várias questões, mas nesse contexto estamos falando de ações de adaptação climática, mitigação e resiliência climática”, diz Rogenir Costa, ponto focal da VAC no Brasil.
Foto: Tatiana Reis/Gunga.
Muitos jovens visitaram esses espaços de poder pela primeira vez, como é o caso de Alícia. ”Talvez daqui a 10 anos tenhamos uma perspectiva um pouco melhor de como as pessoas se sentem nesses espaços de tomada de decisão. Espero que em algum momento no futuro possamos sentir não apenas que pertencemos, mas que esse é um espaço que também podemos ocupar”, conclui Alícia.
Sayonara Adinkra, do Movimento Plantaformas, chamou a atenção para a eficácia dos métodos de participação. ”É preciso que haja uma verdadeira campanha de comunicação, divulgação e educação sobre o que é o processo do Brasil Participativo e o Plano Clima, que está sendo realizado on-line para reunir propostas da sociedade. Você não pode dizer que esse plano é participativo porque ele é apenas um link na internet aberto a contribuições e propostas da sociedade.”
O legado vivo de Chico Mendes
Foto: Gabriela Pires/Gunga.
”Se dizemos que Chico está vivo, ele também está comemorando seu aniversário, pois suas ideias e as sementes que plantou ainda estão vivas e algumas delas estão aqui. São as sementes da Aliança dos Povos da Floresta, neste contexto rebatizada de Aliança Amazônica, aqui representada por jovens indígenas, ribeirinhos, quilombolas e extrativistas. E como na carta que meu pai escreveu, esses jovens que estão aqui também representam a juventude revolucionária. Então, por meio deles, entrelaçamos dois legados do Chico, a carta dele para a juventude do futuro e a aliança que ele firmou com o Ailton Krenak, entre extrativistas e povos indígenas”, disse Angela.

A homenagem contou com a presença dos deputados federais Chico Alencar (PT/RJ), Nilton Tatto (PT/SP), Célia Xakriabá (PSOL/MG), Talíria Petrone (PSOL/RJ) e Socorro Neri (PP/AC), além do presidente do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Rodrigo Agostinho. Mas o destaque foram os discursos inspirados de jovens, como Samsara Nukini, que faz parte da campanha Aliança das Amazônias. ”Trazemos o legado dessas pessoas que já morreram ou foram assassinadas pelo nosso território, que graças a esses defensores está de pé até hoje. Mas ainda estamos lutando pela demarcação de terras. Ainda somos ameaçados e não é fácil se colocar na linha de frente”, disse emocionada.
Além de Samsara, o painel da sociedade civil também foi composto por Catia Santos e Marciana Moura, do Coletivo Varadouro; Zezé Weis, da revista Xapuri Socioambiental; Karla Martins, da Casa Ninja Amazônia; e Ana Luiza de Lima, Coordenadora Geral do Comitê Chico Mendes. Todas essas vozes ecoaram os sentimentos de amor, reconhecimento e responsabilidade com o legado construído pelo homenageado, o patrono nacional do meio ambiente.

O treinamento, que já havia começado com um módulo online que discutiu ”o que é advocacy”, continuará até novembro com mais 3 módulos online e um encerramento presencial para qualificar ainda mais o entendimento sobre advocacy político, mudanças climáticas, racismo ambiental, justiça climática e soluções baseadas na natureza. O Cuida! é realizado pelo programa VCA Regional Team VCA da VCA Brasil em parceria com o Observatório do Clima, uma rede de organizações da sociedade civil que é referência brasileira e global na agenda climática. Desde 2021, a VCA trabalha para empoderar jovens e mulheres para que assumam o protagonismo na agenda climática e ocupem espaços de tomada de decisão. A Equipe Regional da VCA Brasil é formada por WWF-Brasil, Fundación Avina, Hivos, Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e Fundo Casa Socioambiental. e apoia mais de 80 organizações que trabalham na Amazônia Legal.
Clique abaixo para conferir o material gráfico de facilitação produzido durante o treinamento. Facilitação gráfica – Cuida!
Facilitação gráfica – Cuida!
Facilitação gráfica – Cuida!










