ARTE EM LUTA

O inadiável futuro do petróleo é embaixo do solo, o inadiável futuro da floresta é em pé

Trecho de texto publicado originalmente na pesquisa livre sobre artivismo, meio ambiente e colapso climático, em novembro de 2021, e republicado na 1ª edição da Revista Vozes pela Ação Climática Justa, em junho de 2023. Leia a revista completa aqui,

Caminhamos aceleradamente para o aquecimento do planeta de 1,5°C acima da temperatura normal (sem intervenção do homem). Esse limite é o máximo que podemos alcançar, segundo cientistas e estudiosos para se evitar piores desastres e impactos sobre a vida na Terra e extinção de diversas espécies, incluindo a sobrevivência da espécie humana.

De acordo com estudos do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima) já estamos em um cenário de colapso climático. Enfrentaremos desastres ambientais irreversíveis se não desacelerarmos o consumo de combustíveis fósseis e o desmatamento das florestas no planeta, entre diversas outras ações humanas.

 

NATUREZA MORTA. Denilson Baniwa é um ativista artístico brasileiro que inspira a busca por uma cultura descolonizadora. Oriundo do povo Baniwa, utiliza linguagens ocidentais e cria novos contextos para descolonizá-las em seu trabalho. O artista em sua trajetória contemporânea se consolida como referência, quebrando paradigmas e abrindo caminhos para o protagonismo dos povos indígenas.

TRANSIÇÃO DE MODELO CULTURAL

Uma nova minuta do acordo final da Cúpula do Clima de 2021 (COP-26), realizada em novembro de 2021 em Glasgow, manteve a exigência básica de que os países definam planos para enfrentar o aquecimento global. A proposta manteve o apelo para que os países acelerem ”os esforços para a eliminação progressiva da energia movida a carvão e dos subsídios ineficientes aos combustíveis fósseis”, mas, em uma nova emenda, agora aponta que as nações reconhecerão ”a necessidade de apoiar uma transição justa”, uma referência aos pedidos de assistência financeira dos países em desenvolvimento.

A ideia de “transição justa” surgiu nos Estados Unidos na década de 70, durante a greve que foi denominada a primeira greve ambiental pelo Sindicato Oil, Chemical e Atomic Workers Union (OCAW), sobre questões de saúde e segurança nas refinarias da Shell. Falaremos mais da Shell ao longo do texto.

A “transição justa” é um pacto cultural. Um novo modelo de sociedade precisa surgir, em todos os âmbitos. Iniciativa pública, privada e sociedade civil organizada, trabalhando em função de mudanças que evitem o colapso climático. E é nesse lugar que a cultura tem um papel fundamental. A cultura é a plataforma onde teorias, caminhos e narrativas são construídas no imaginário humano. A cultura é a plataforma do imaginário. Para evitar o ponto de não retorno, o colapso climático, o artivismo pode ser uma das principais ferramentas de construção do imaginário da transição.

Cinzas, restos de árvores e animais carbonizados foram a matéria-prima da tinta utilizada pelo artista Mundano para pintar o painel no centro da cidade de São Paulo, denominado ”O Brigadista da Floresta”, 2021. A obra lança luz sobre a destruição dos grandes biomas brasileiros, que estão sendo literalmente reduzidos a cinzas. A ”Brigada da Floresta” é uma reinterpretação de uma obra muito representativa do Brasil pintada por Portinari: ”O Lavrador de Café”, de 1934. Foto: Mundano

COMUNICAÇÃO COMO OBRA DE ARTE, O ATIVISMO ARTÍSTICO

O ativismo artístico, como ação artística, faz parte da cena contemporânea que, além de registrar a história, pretende provocar o engajamento político e social. A arte ativista encontra espaço em artistas, coletivos e movimentos. O ativismo artístico faz uso de estratégias artísticas, estéticas ou simbólicas para ampliar, sensibilizar e problematizar a sociedade, causas e demandas sociais.

Atuar coletivamente significa agir no campo da transversalidade, produzir formas de subjetividade, trabalhar com a cooperação e com o interativismo. O artivismo opera em qualquer espaço, mas a cidade, o espaço urbano, local de convívio social em todas as duas dimensões, é o principal palco para ações e intervenções.

A comunicação como obra de arte, ou a arte vista como meio de comunicação que ocupa um espaço de mídia radical, causa grande impacto de conteúdo estético e interativo.

A atividade do artivista não está ligada somente a retórica, ao discurso engajado, a estética ou a ética do artista, mas no seu envolvimento em questões sociais que possam, através de suas práticas, produzir verdadeiras mudanças. “O artivismo é uma estratégia de comunicação para chegar ao público, desviando dos meios hegemônicos que conduzem as narrativas. É um dos meios mais rebeldes de comunicação que ainda nos resta”.

Apesar da cena artística usar o conceito de “artivismo” há poucos anos, os artivistas estão aí desde sempre. Por isso, vale lembrar e registrar obras inspiradoras que seguirão nos guiando na construção de um imaginário possível da existência da vida no planeta.


”Para acessar a pesquisa completa ”Arte em Luta” , clique aqui.

A Revista Vozes pela Ação Climática Justa é uma publicação produzida coletivamente pelo Time Regional Brasil e as organizações apoiadas pelo programa no país.

Saiba mais sobre nossos parceiros